Cesar Garcia Lima
Jornalista e poeta, nascido em 28/01/64, em Rio Branco-Acre, e mora no Rio de Janeiro.
O livro Águas Desnecessárias assinala a estréia do jornalista Cesar Garcia Lima como poeta. Tendo já participado de várias antologias como integrante do grupo Cálamo, em São Paulo, em seu primeiro mergulho individual o autor revela textos de formato variado, que vão do poema-pílula a fragmentos de prosa. Coloquial e metafísico, nostálgico com ironia, Cesar Garcia Lima mistura recordações da infância no Acre com retratos acelerados da solidão em meio aos grandes centros urbanos, além de dialogar com vários momentos da tradição literária brasileira (dos árcades mineiros à poesia marginal dos anos 70).

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TRECHOS DO LIVRO ÁGUAS DESNECESSÁRIAS:

TEMPO DE MANGA
naquela época
as mães dos amigos ainda ficavam grávidas
as crianças menores eram um segredo
as do mesmo tamanho, inimigos em potencial
quando a preocupação era ganhar ou ganhar
e o demônio podia ser qualquer barulho
depois da janta

ESCAMBO
encontrei sangue na nuca perfeita da deusa
   e chorei meses por constatar a mortalidade de sua paixão.
      ela fez maçãs com seus coágulos
  embrulhadas na luz quebradiça de seus cabelos loiros.
    mas não tive escolha senão vendê-las
e tirar delas o meu sustento.

A SERPENTE DE PEDRA
Impossível roubar as curvas da muralha da China.
É um conforto saber que o rasgo fino dos olhos
aprecia a textura impiedosa da caça.
Na verdade, eles pouco sabem sobre a cor.

Construída em horas tristes
                        dias incandescentes
a muralha agrega sementes
trazidas pelos pássaros
em tempos que o calendário não registra.

Há o consolo azul do anis
lembrando estrelas
e uma estrada sempre reta
que endireita a muralha.

Mas a muralha não é assim.
Segue os contornos imprecisos da garganta indócil
dos habitantes cegos de suas redondezas.

Nem isso consegue fazer esquecer o sabor
das especiarias tiradas das dispensas dos deuses.

A PRIMEIRA LIRA DE DIRCEU
No dia em que pôs os olhos na primeira lira de Dirceu
Marília quebrou todos os espelhos
do vasto sobrado em que morava.
Deu um jeito de pôr a culpa nas negras
mais por criancice que por maldade
senão titia a matava.

Marília, vaidosa, espatifou os espelhos
para não se ver crescer, as rugas chegarem
ciosa de que os homens de sua vida saíssem das Geraes -
afinal, apenas uma passagem para outros lugares,
onde nem o mar chegava.

Na primeira lira de Dirceu
Marília percebeu que apenas ali resistiria bela
e vislumbrou seu futuro
gorda e cheia de filhos
como se tivesse o dom da profecia.

Desde a primeira linha
a lira feriu-lhe o orgulho
e ela perdeu o direito
de ver a si mesma, sem subterfúgios.

Conformou-se em surgir refletida
nos versos educados de Dirceu
um homem bem-intencionado
mas que jamais foi capaz
de tocar-lhe os cabelos.

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