
Carlos
Drummond de Andrade
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| MÃO DADAS |
| Não serei o poeta de mundo caduco. |
| Também não cantarei o mundo futuro. |
| Estou preso à vida e olho meus companheiros. |
| Estão taciturnos mas nutrem grandes espereanças, |
| Entre eles, considero a enorme realidade. |
| O presente é tão grande, não nos afastemos. |
| Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas. |
| Não serei o cantor de uma mulher, de uma história, |
| não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela, |
| não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicidas, |
| não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins. |
| O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes |
| a vida presente. |
.
| INSTANTE |
| Uma semente engravidava a tarde. |
| Era o dia nascendo, em vez da noite. |
| Perdia amor seu hálito covarde, |
| e a vida, corcel rubro, dava um coice, |
| mas tão delicioso, que a ferida |
| no peito transtornado, aceso em festa, |
| acordava, gravura enlouquecida, |
| sobre o tempo sem caule, uma promessa |
| A manhã sempre-sempre, e dociastutos |
| eus caçadores a correr, e as presas |
| num feliz entregar-se, entre soluços. |
| E que mais, vida eterna, me planejas ? |
| O que se desatou num só momento |
| não cabe no infinito, e é fuga e vento. |